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segunda-feira, outubro 11, 2004

Kill Bill - Volume 2




por Guga Keisha


...e então, depois de ver Kill Bill Vol. 2, alguém foi lá e disse: "Tarantino fez um filme humanista! Os personagens tem sentimentos, assassinos têm sentimentos, todos temos sentimentos". E foi assim que, desse momento em diante, passou-se a idolatrar a segunda parte do famigerado projeto da volta de Quentin Tarantino. O que essas pessoas não perceberam, e este é um pequeno detalhe muito importante - e talvez até excessivamente óbvio para eu estar afirmando, mas vá lá, as pessoas fizeram isso mesmo, acredite-se ou não -, é que estavam aclamando, no Volume 2, justamente aquilo que não havia no Volume 1 e fora exatamente o motivo pelo qual este último havia sido tão, err, aclamado.

Algo mais ou menos assim: Se Kill Bill Volume 1 não se preocupa nem um pouco com os personagens e coloca a ação, o banho de sangue, o espetáculo visual acima de tudo, bom, então maravilha, o elogiemos por isso. Agora, se Kill Bill Volume 2 humaniza os personagens, é construído sob um ritmo condensado, é cheio de diálogos duradouros, fala sobre amor de mãe etc, bom, então maravilha, o elogiemos por isso.

Ou seja, contradição total por parte dos fãs (apenas os que fizeram isso, evidentemente), e mais ainda por parte do diretor, se isto é mesmo verdade. Bom, é e não é. Que esta segunda parte é algo completamente diferente da primeira, disso ninguém discorda, mas que essa mudança tão absurda no tom e até no conceito é algo que faz o total sentido, acho que é o que tem gente precisando enxergar.

Desde o primeiro momento do Volume 1, afinal, Tarantino deixa claro que está disposto a brincar com as expectativas do público, subvertê-las, dar o óbvio quando espera-se o surpreendente e vice-versa. Bill não é o vilão que querde qualquer jeito aniquilar a sua vítima, Bill é o vilão que quer maltrata-la, para que em seguida esta volte com o máximo possível de raiva, sede de vingança, querendo enfrenta-lo.

Há um punhado de exemplos como esse ainda na primeira metade da jornada da Noiva (que em Kill Bill Vol. 2 ganha nome - Beatrix Kiddo -, e uma cena genialmente hilária), desde a conclusão de pequenas seqüências (quando espera-se a ação, a revelação, quando espera-se qualquer coisa daquela determinada imagem, o diretor nos dá justamente o contrário) até a própria temática do filme-de-vingança (o vilão masoquista, não sádico). E há bastante disso no Volume 2, ainda - o confronto entre Beatrix e Elle Driver, Budd pegando-a de surpresa, a própria morte de Bill.

Dessa maneira, para o Volume 2, Tarantino nos reserva o perfeito oposto doque era o Volume 1. O filme mais denso, mais dialogado, intimista, bem longe da carnificina que se fazia presente no primeiro. Basicamente, faz-se o espectador ir ao cinema esperando mais daquela ação interminável para encontrar pessoas externando teses sobre super-heróis em conversas que duram mais de mais de 10 minutos.

O que impressiona, portanto, não é a capacidade de Tarantino em tornar personagens críveis e humanos (porque isso todos que viram Jackie Brown já estão cansados de saber, apesar de aqui o sujeito ir além e humanizar até as peças aparentemente ocas de jogo divertidíssimo que era o Vol. 1), mas sim a de levar adiante uma proposta com total lucidez e controle, mesmo que isso possa vir a decepcionar uns e outros. Coerência acima de tudo é isso aí.

Se o projeto Kill Bill tinha como objetivo testar os limites do talento de Quentin, pois então eu diria que o dever está cumprido. Se existe algo que Tarantino domina, este algo é a arte de contar histórias. Existe, inclusive, uma cena bastante curiosa nesse sentido em determinado momento do segundo volume.

Trata-se do momento em que Bill conta a Beatrix a história de como B.B matou seu peixe, Emilio, começando pelo fato da menina ter pisado nele, até chegar ao motivo pelo qual ela simplesmente o tirou do aquário. Exatamente a estrutura do filme que estamos vendo, pois. Primeiro a morte, a ação em si, para depois a explicação e os fatos que levam os personagens a ganharem vida (através justamente da morte, do ato de matar, estamos falando de um filme habitado por assassinos, não podemos esquecer).

Essa é uma seqüência, ainda, em que o diretor parece questionar a razão da maioria das histórias serem contadas no cinema partindo do começo, passando pelo meio e chegando ao fim; se as pessoas, fora do cinema, raramente fazem isso, ao contar uma história sobre qualquer coisa a qualquer pessoa - e seus filmes, desde Cães de Aluguel, nunca tiveram roteiros exatamente lineares, o que só reforça esta idéia.

Especialmente neste último projeto, Tarantino deixa a clara impressão de que não se conforma em filmar sequer uma cena, deixar um único momento de seu filme, sem um atrativo especial, um algo a mais, algo que vá chamar a atenção de alguém de alguma forma. E ele faz isso sem parecer exibicionista em um único momento, seja quando este algo é David Carradine caminhando de pés descalços como fazia no seriado de TV pelo qual é tão famoso (ou qualquer outra das mil e uma referências e citações), seja com uma música (o que é aquela cena ao som de About Her, com B.B pegando no sono nos braços da mão enquanto as duas assistem Shogun Assasins, por deus? Eu estava quase chorando...), seja um movimento de câmera, sejam os criativos créditos finais.

Dizer que Kill Bill Volume 2 é um filme sobre amor não é nenhum absurdo, pelo contrário. É o amor, agora sabemos, que move todo o filme, que faz comque tudo aconteça. O amor de Beatrix Kiddo pela filha recém-descoberta - razão essa que a faz decidir mudar de vida (o filme é bastante direto a esse respeito, bota o amor à frente de tudo e diz claramente: "matar pode, matar quando se está esperando um filho é impossível") -, o amor (também de pai, repare, na cena da fogueira, o sorriso de Uma Thurman para Carradine), de Bill por Beatrix.

Quebrar o coração de um assassino tem as suas conseqüências, quebrar ocoração de uma mãe, idem. Ao colocar a legenda aparentemente inofensiva no final do filme, confirma-se que o amor de mãe é o maior de todos, e que valem todos dos esforços para criar sua... cria... da forma como ela merece. O choro misturado com alegria de Beatrix no banheiro diz tudo.

A noiva, no Volume 2, revela-se ser dos personagens mais interessantes que o cinema alguma vez já nos deu. É ´´the deadliest woman in the world´´, mas passa a sentir medo assim que descobre estar grávida. Tem consciência que matou a ´´hell of a lot of people´´, mas sabe também a que isso a trouxe (o choro e riso do banheiro).

Kill Bill, completo, transita entre o banal-espetacular e o realista-a-gerar-discussões (amor, moral), diz e contradiz, nega a si mesmo - e é isso, também, que o torna tão fascinante.

Nas 4 horas que duram os dois volumes, há a brincadeira deliciosa que é a homenagem de Tarantino a tudo aquilo que ele ama no cinema (kung fu, spaghetti western, zumbis, Leone, DePalma, Sonny Chiba, David Carradine, Hitchcock, enfim) - uma mistura de gêneros e estilos prazerosa como poucas vezes qualquer filme de qualquer tipo sobre qualquer coisa já foi -, há todo o filme construído inteiramente sob a relação mãe e filha (desde o primeiro momento do Vol. 1, quando a personagem de uma Thurman diz o que diz para a filha de Vernita Green), e há essa genialidade que é destruir e montar a expectativa do público a cada frame.

Ou seja, Kill Bill, como um todo, é excelente tanto se visto como duas obras completamente diferentes uma da outra, quanto se visto como um único filme com dois momentos inteiramente distintos, que negam um ao outro. E pode ser enxergado de qualquer forma, o que é ainda mais impressionante. Volume 1, Volume 2 e Kill Bill Completo: todos diferentes, todos excelentes à sua própria (e talvez única) maneira.

[Kill Bill - Volume 2, EUA 2004, Quentin Tarantino]



1:31 AM

quinta-feira, outubro 07, 2004

A Supremacia Bourne



por Joe Tchenzo

Depois que os produtores de A Supremacia Bourne assistiram Domingo Sangrento, filme vencedor do Urso de Ouro em Berlim e da Escolha da Audiência em Sundance, eles resolveram contratar Paul Greengrass para dirigir a seqüência de A Identidade Bourne. Estes disseram que gostaram muito do estilo utilizado pelo diretor nas filmagens de Domingo Sangrento, que a câmera tremida e obscura captava o espectador para dentro da realidade do filme e uma aproximação mais verdadeira era o resultado final do processo. Paul Greengrass fez a exigência de usar a mesma câmera Super 35, câmera também usada em A Última Noite de Spike Lee, para filmar A Supremacia Bourne, já que se tratava de um filme de reconstrução do passado de um personagem que agora teria uma aproximação maior com o público, se distanciando um pouco do frenético ritmo de perseguição do primeiro filme. Em A Supremacia Bourne o protagonista bem interpretado por Matt Damon viveria um paralelismo entre o espectro de ser um matador profissional e com a busca das verdades sobre seu passado onde a partir de flaxes desconexos dos acontecimentos vividos e de uma mola mestra na narrativa procuraria saber sua história.

A câmera do diretor que ganhou seu primeiro prêmio quando fez um filme antiguerra das Malvinas chamado Resurrected de 1989 ainda como jornalista investigativo, é completamente agressiva e acelerada, sempre perseguindo e quase que criando climas de aproximação furtiva com os personagens da trama, o que acaba criando certo realismo nas tomadas. Isso funciona muito bem nas cenas de perseguição de carros, como na fenomenal perseguição em que Bourne dirige um Taxi e principalmente nas cenas onde a alta cúpula do departamento da CIA, como nas reuniões anti-violência em Domingo Sangrento, procura informações e arquiteta maneiras de capturar Bourne, cujas impressões digitais acabaram incriminando-o do assassinato de dois policiais da corporação.

O foco do roteiro foi basicamente no protagonista atormentado que agora era humanizado pelos acontecimentos que se sucediam. Depois do assassinato de Marie (Franka Potente) na Índia, que era a personagem que dava esperança na retomada do passado de Bourne - a cena da praia é bem declamativa neste ponto - este se desgarra da confortável situação ao lado da moça e parte em busca de seu assassino, do seu passado e de tentativas de se desvencilhar da tutela da CIA, que o acusa de duplo homicídio, numa trama que ficou pautada por menos ação e por mais conteúdo tanto para compor o personagem de Matt Damon, como para compor uma narrativa inteligente ainda vindo a complementar o que foi mostrado no primeiro filme. O gancho inicial da narrativa muito me lembrou a morte da esposa de James Bond em 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade, onde já que os roteiristas da série não conseguiram criar algo decente com um 007 casado e apoiando-se numa trama de um 007 mais vingativo e agressivo, porém não propriamente dito um assassino sanguinário, criaram 007 Os Diamantes São Eternos, provavelmente um dos melhores da série. Porém, Jason Bourne não busca vingança. Marie para ele é mais como uma memória positiva, como um gesto de esperança que este guarda na foto restante dos pertences que lembram-na.

Este se vê dividido entre o pré-julgamento de ser um assassino frio e calculista e de criar seu passado ao mesmo tempo em que se humaniza, seja na relação desesperada que vai mantendo com quem o persegue, papel dividido entre Pamela Landy (Joan Allen), [uma forma de tentar analisar os pensamentos e as ações de Bourne] e Ward Abbott (Brian Cox) [em seus característicos papéis de antagonista], ou seja consigo mesmo, quando vai aos poucos montando o quebra-cabeças dos acontecimentos que formaram seu estigma e representatividade. Algo aqui lembra Amnésia de Christopher Nolan, mas sem a mesma profundidade da trama e o próprio embasamento do personagem de Guy Pearce.

Algumas filmagens em Berlim foram feitas no Babblesbey Studios, o mesmo onde Fritz Lang filmou Metrópolis e Josef von Sternberg filmou O Anjo Azul. Vale destacar também as belíssimas locações do filme que faturou até agora 173 milhões de dólares de bilheteria, e que nesta continuação englobou países fora dos mostrados no primeiro filme, como Índia e Rússia. Tanto A Identidade Boune como A Supremacia Bourne são baseados nos livros homônimos de Robert Ludlum, campeões de vendas e que permaneceram durante semanas entre os mais vendidos em Nova Iorque. Só houveram algumas mudanças mais flagrantes na relação Bourne-Marie e na forma em como ela desapareceria da vida do mesmo, já que no livro ela seria sequestrada e não assassinada da maneira como ocorre no filme e isto seria o que levaria Bourne adiante na narrativa.

A Supremacia Bourne é acima de tudo um avanço na série de Jason Bourne. Seja em termos de uma excelente filmagem ou na construção de um personagem interpretado por Matt Damon que agora se mostra muito mais complexo e interessante, que ganha consistência e deixa de ser mera marionete para seqüências de ação do primeiro filme. Agora este é complementado por coadjuvantes com conflitos plausíveis, sem cairem frequentemente em lugares comuns e por um roteiro que supre em muito a ausência da mesma quantidade de ação tão presente em A Identidade Bourne.

(The Bourne Supremacy, EUA 2004, Paul Greengrass)


1:33 AM

sábado, setembro 04, 2004

Alien Versus Predador




por Joe Tchenzo

'Whoever wins, we lose'. Essa frase tema do novo filme de Paul Anderson, diretor dos ilustres Resident Evil e Mortal Kombat (1995) - e que desistiu de suas continuações, Residente Evil: Apocalipse (2005) e Mortal Kombat: Domination (2005) para dirigir Alien Versus Predador - considerado um dos piores diretores da atualidade, até que faz sentido. Basicamente por que em Alien Versus Predador, nós perdemos. Perdemos o ingresso, o tempo que passamos no cinema, o dinheiro com a pipoca, com o transporte, e claro, a paciência. E haja paciência.

Sendo fã das duas obras primas, Alien e Aliens, O Resgate (mais especificamente deste) e gostando bastante do primeiro filme da série Predador, resolvi assistir mais este encontro de caras mal-resolvidos, como ocorreu em Freddy X Jason e virá a acontecer em Freddy X Jason X Ash (o ruim daí é que dois podem juntar em um, o que inviabilizaria um confronto mais adequado, presumindo que o mano a mano seria o correto quando se fala em porrada). Desde Predador 2, onde aparecem crânios de aliens em sua nave espacial existia um boato sobre a criação deste filme.

A história, se é que existe, se baseia nesta premissa. Um magnata norte americano descobre através de seu satélite, uma fonte de calor nas calotas polares e resolve enviar uma equipe - mesmo que despreparada - para investigar uma pirâmide 6500 metros sob o gelo, só que aí eles se vêem no meio de uma batalhazinha vale-tudo entre predadores e aliens. Até aí tudo bem, o mais medonho foi o background da batalha das criaturas que Paul Anderson (o indivíduo também escreveu o roteiro) resolveu criar. Vejam só: os predadores há milênios vieram para a Terra promover avanços tecnológicos nas civilização cambojana, asteca e egípcia, sim, só nessas. Aí esses povos construíram pirâmides e endeusaram os predadores, que - entediados com a monotonia da terra - resolvem criar aliens em cativeiro e depois caça-los por diversão. Eles mantém a Alien Queen congelada e presa e a cada ciclo de 100 anos eles ganham novos inimigos. Só que (incrível!) se os Aliens tomarem a superfície, nosso planeta corre sério risco, aí eles precisam caçar com certa consciência. É como se caçadores canadenses, cansados de caçar veados, criassem ursos em cativeiros para mata-los a cada 5 anos.

Por falar em Paul Anderson, a direção é algo assim, fenomenal. Alguém grita 'hei Paul Anderson, cria suspense!?' aí o diretor cria suspense. Mas é aquele suspense de filme de quinta, onde algumas situações padrão se repetem - como quando ocorrem os falsos sustos, os sustos forçados, se é que podemos chamar algo ali de assustador, ou a iluminação precária, além de inteligentes diálogos norteadores onde os personagens são desenvolvidos com uma ou duas - e porque não nenhuma? - informações sobre suas vidas e aí começam a morrer um por um. Tipo um certo Resident Evil, só que um Resident Evil piorado, olhem só. O suspense do diretor é quase infantil, chega a dar pena. E ele brinca com os clichês, tem cenas em que ele usa só um, tem outras em que ele resolve usar uns vinte, e assim por diante. A montagem do filme é quase um insulto. As cenas de luta, o que seriam o maior atrativo do filme, são um ultrage. O que é uma cena de luta em Alien Versus Predador? É simples. Paul Anderson se utiliza de uma montagem acelerada e gira a câmera 1080º enquanto os bichos ficam se abraçando. Aí a câmera pára - ás vezes um bullet time, vale a pena ressaltar - e um mata o outro, variando pouco disso, genial.

O filme, que podia se utilizar das fortes imagens dos outros filmes da série, preferiu ser mais politicamente correto. A censura, de 14 anos explica algumas coisas. O filme quase não tem sangue, parece aquelas lutas que passavam na Band com o Hook Hogan, aquelas brigas fake, só que aqui entre um predador que mais parece um boneco de borracha e um alien que perdeu totalmente o seu poder. Nem a Alien Queen tem mais seu hype determinante, como naquela batalha clássica contra Ripley num robô espacial.

É interessante saber que o roteiro é tão ruim, que o espectador fica meio bobo, porque é justamente assim que Paul Anderson nos trata, como imbecis. Primeiro ele mostra predadores e aliens como criaturas malvadas. Ambos matam humanos. Aí, os predadores viram amiguinhos - intrinsecamente é porque são humanóides, já que é meio inviável ele tornar os aliens nossos amiguinhos - e de braços dados, vão matar aliens com uma mocinha que atua tão bem quanto, hmmm, sei lá, não lembro de ninguém muito pior. Aí os predadores, veja só! ficam bonzinhos e não pensam mais em abrir nossos estômagos e nos pendurar de ponta a cabeça. A caçada vira uma diversão coletiva e como era de se esperar, os riscos são maiores do que se esperava. Vale ressaltar também os diálogos, completamente geniais e a seqüência em que a mocinha parecida com a Pam Grier (alguém lembra de Jackie Brown?) vive uma complexa crise de responsabilidade, quando decide se irá ou não na expedição.

Até o uso de CGI, coisa que normalmente é o mais explorado neste tipo de filme, é tosco. A explicação para a falta de grana (60 milhões é pouco dinheiro? Eu não acho) é que os efeitos em CGI são facilmente captados pelo público, parecendo vídeo game e que devido a isso, 70% dos efeitos do filme são físicos. Balela. Algumas seqüências são puramente trash, parecendo filme b ou algum joguinho de vídeo game da época do Mega Drive, o mesmo pras colagens nos cenários que ficam tão ruins quanto.

A grande verdade é que Paul Anderson é um cara bastante criativo. Porque pra criar um Alien Versus Predador, filme que tinha tamanho potencial, dessa maneira, é coisa pra profissional. Aliás, eu nunca vi uma conjunção de fatores negativos tão concentrados em um belo tempo, Alien Versus Predador é o maior exemplo atual para a força que a indústria cultural tem em nosso planeta. Releva-se o filme em detrimento de uma franquia visando única e exclusivamente angariar fundos, coisa que foi realizada (o filme faturou 72 milhões nos cinemas até agora). Um filme mostrar dois ícones do cinema simplesmente por mostrar, para animar crianças de 14 anos, onde as duas criaturas são espetacularmente esvaziadas e, embasadas por uma história ridícula é algo frustrante. Pra ficar mais interessante, só faltava o beijinho final.

(Alien Versus Predador, Paul Anderson, EUA 2004)



1:27 AM

terça-feira, agosto 31, 2004

Olga



por Samuel Buzz

Seremos diretos: Olga não é um filme bom. O que não é surpresa, pois os últimos lançamentos da Globo Filmes vêm se tornando cada vez menos apreciados pela crítica e, comprovando a tese de que o Brasil é um país onde predomina o "povão", lotando com enormes massas as salas de cinema para rirem da turma do Casseta e Planeta e cantarem as músicas do Cazuza.

Mas é até injustiça criticar essa postura adotada pela população brasileira, já que, mesmo no EUA, as irmãs Olsen fazem o maior sucesso, e nunca fizeram um filme digno de discussão na vida. Só repare bem um detalhe: no Brasil, a maioria dos filmes lançados têm um público relativamente bom. Até mesmo Woody Allen, que geralmente atravessa um mar de espinhos para ser assistido aqui, leva uma boa remessa aos cinemas. E se eu te perguntar qual foi o último sucesso do Allen lá em cima, bem, você nem deve saber o que responder. Claro que essa valorização por parte dos cinéfilos tupiniquins deve-se ao fato do número de longas lançados por aqui anualmente, relativamente inferior à quantidade de filmes produzidos pelos filhos do Sam.

E é aí que se justifica o sucesso certeiro de Olga. Acostumados com os dramas contados por diretores de dramaturgia televisiva nas tardes e noites da manda-chuva das comunicações, o público vai mesmo se emocionar com a história da comunista judia que foge de Berlim para Moscou, é enviada ao Brasil para proteger um líder do partido e se apaixona por ele durante a viagem. E muita gente vai chorar no terço final, quando Olga é enviada grávida para a Alemanha de Hitler e, após poucos meses, supostamente perde sua filha para o governo nazista e morre na câmara de gás. Até eu me emocionei com a história, deveras triste, confesso. Moça rica, bonita, abandona tudo por uma causa, é presa, tem a filha separada pelo governo e é assassinada... É a fórmula do sucesso para atrair investimentos para futuros projetos da Globo Filmes (quem sabe uma cinebiografia de Renato Russo?). O grande problema é que não soube ser contada. Mas eles não estão nem aí, sabem como o mundo capitalista funciona.

E aí, com o cofre cheio e público satisfeito, os magnatas se dão por satisfeitos. E a indagação é: como ficam os verdadeiros amantes de um bom cinema? Se aborrecidos é a primeira palavra que lhe veio à mente, acertou na mosca. Apostando em demasia numa narrativa que se iguala em todos os aspectos às novelas da emissora, Jayme Monjardim produziu um épico que prima pela reconstituição de época e pela produção requintada. Mas nem por isso merece ser lembrado como um bom filme. É visível que em vários momentos soa datado e, no fundo, não passa de uma minissérie sem intervalos. Ora pelas interpretações unidimensionais de todo o elenco, sem exceções; ora pela maneira obrigatória do roteiro em seguir um painel irrepreensível, sem ao menos um pingo de pretensão; ora pela direção perceptivelmente iniciante e televisiva, corroborada pelo número excessivo de closes e situações melodramáticas, ausente de um toque autoral.

O grande problema do cinema brasileiro pós-retomada, é justamente a ausência de diretores que possuam uma marca própria. Jorge Furtado e Andrucha Waddington, raras exceções, produziram fitas brilhantes e originais e já trabalham em novos projetos, à primeira vista, interessantíssimos. Só nos resta torcer para que não caiam no truque da Globo e, só assim, assistiremos a cinema de qualidade no Brasil.

(Olga, Jayme Monjardim, Brasil 2004)


10:58 PM

segunda-feira, agosto 23, 2004

Ken Park




por Guga Keisha

Larry Clark. Para alguns, doente mental. Para Rubens Ewald Filho, um junkie com dentes amarelos que tem talento, mas muito pouco. Para outros, exímio cineasta que trata como ninguém dos problemas da juventude norte-americana. Para mim, o provável excelente fotógrafo e diretor de Ken Park e Another day in paradise (porcaria insignificante mas com trilha sonora de primeira, cujo título em português me recuso a digitar porque consegue ser pior que o filme), mas mais do que tudo, o Michal Jackson do cinema. Indagava sobre a possibilidade dessa definição para o sujeito, que até hoje só dirigiu filmes envolvendo adolescentes transando/se drogando, e agora em Ken Park (Krap Nek, se lido ao contrário, veja você) a confirmei.

No filme, somos apresentados a uma meia dúzia de jovens que vivem na cidade de Visália, Califórnia. Clark, e Edward Lanchman, co-diretor, quer, ou diz querer, talvez seja mais apropriado, explorar a rotina desses cidadãos, para mais uma vez tecer comentários a respeito da juventude problemática dos Estados Unidos. Mas fica na intenção (ou nas palavras da boca pra fora), porque não é bem isso que acontece.

Na verdade, o que há é um punhado de cenas de sexo explícito sem razão para existir. São umas três ou quatro, todas naquele esquema: estrelando atores de mais de dezoito anos, mas com cara de menos. Um adolescente lambendo a mãe da namorada, um ménage à trois, sado-masoquismo entre a jovem flha de um cristão fundamentalista e seu namorado inocente. Todas com tudo a que se tem direito, closes de genitália e afins. Fora a masturbação de um dos personagens ? com câmera fixa até a ejaculação -, um outro urinando com a câmera fechando em seu membro, um tiro na cabeça sem cortes e outras delicadezas do gênero.

É gratuito, sim, uma vez que não acrescenta nada à narrativa. É choque pelo choque, polêmica pela polêmica. Por que, se não fosse por esse fato ('oh, um filme sério pornô!?), o que seria de Ken Park? Absolutamente nada. Os diretores não estão dispostos a dizer coisa alguma sobre aquilo que filmam, não há um personagem minimamente humano, minimamente crível, minimamente real. São todos brinquedos, presentes ali apenas para que o trabalho sujo dos sujeitos em questão possa ser realizado.

Por esse motivo, me espanto ao ler ou ouvir de alguém que trata-se de um filme reflexivo, profundo, ou qualquer coisa do tipo. Se existe alguma coisa a ser extraída disso tudo, é a mensagem de que os jovens de cidade pequena não têm muita coisa a fazer além de brigar com seus pais malvados, mas conseguem espantar o tédio fazendo sexo.

Porém, apesar dos pesares, é um filme curioso. Como fotografias que se movem na tela, Ken Park é de uma beleza estranha fora do comum. Um rapaz que acabou de assassinar os avós a sangue frio deita, com o rosto respingado de sangue, coloca as mãos atrás da cabeça e uma das dentaduras que pegara na cena do crime. Largo sorriso não-intencional, e câmera fixa nessa imagem por alguns segundos. É um plano impressionante, lindo e assustador ao mesmo tempo ? e são vários assim, ao longo do filme.

É algo que faz bastante sentido, tendo em vista que antes de se tornar cineasta Clark trabalhava com fotógrafo, e tornaria Ken Park imensamente mais interessante, caso eu conseguisse acreditar que o longa foi realmente pensado para ser dessa maneira. E pode até ter sido. Mas o problema, acho eu, é que Clark se sente deveras confortável enganando um público (que não sei até que ponto é grande ou pequeno, maioria ou não), se passando por alguém que compreende e tem algo a nos dizer sobre seus personagens e a situação pelas quais estes passam.

Mas uma coisa é certa: se Rubens Ewald Filho está com a razão, não há dúvidas de que o pouco talento que Clark possui está contido inteiramente na arte de tirar fotografias. E cada vez mais eu me convenço de que ele deveria ter ficado por lá mesmo.

(Ken Park, Larry Clark, EUA 2002)



2:23 AM

quinta-feira, agosto 19, 2004

Os Eleitos


por Joe Tchenzo

Um dos elementos que mais marcaram a Guerra Fria foi o revanchismo entre as duas potências, Estados Unidos e União Soviética. O mundo era primordialmente bipolar e o receio de uma guerra nuclear amedrontava a todos, basicamente porque, o fim do mundo estava ao alcance de uns poucos botões. Segundo o historiador americano Raymond Aron, o mundo na guerra fria se configurava por: 'Paz impossível. Guerra improvável', porém, com a morte do ditador Stálin, assume o poder na União Soviética um homem chamado Nikita Kruschev e os acontecimentos mudam de rumo. Ele institui uma coexistência pacífica com os EUA e a guerra passa a ser virtualmente mais tecnológica e científica do que bélica. A competição agora era voltada para o campo da exploração espacial e do lançamento de foguetes e satélites.

Foi sobre este período conturbado e repleto de desconfianças que Philip Kaufman (um dos responsáveis pela história de Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida e o diretor de Os Invasores de Corpos) fez Os Eleitos. O filme fala basicamente da desesperada corrida espacial norte-americana e da luta desajeitada para sobrepujar sua rival vermelha. Ele cria um épico, que mostra a busca pela quebra de recordes na aviação militar, a escolha pelo grupo de 7 astronautas norte-americanos e suas idas ao espaço, mas o mais interessante é a forma não convencional em que o tema do filme é abordado.

O ritmo da narrativa é extremamente irônico e repleto de um humor contido, mas inteligente. O modo como foram escolhidos os astronautas americanos - alguns deles pilotos civis, um era astro de talk show, o outro fazia imitações de um idiota latino - foi pautado num humor bem corrosivo, seja no período de treinamento, onde eles dividiam a sala com macacos, jornalistas e cientistas irresponsáveis ou no próprio processo de exploração espacial. Algumas cenas são memoráveis, como na que um dos astronautas diz que precisa urinar poucos minutos antes de ser lançado e o técnico responsável instrui-lhe a urinar no traje espacial, ou quando John Glen (Ed Harris) está em órbita e acha que as faíscas brilhantes que saem de sua nave são um tipo de vida alienígena.

A constante desorganização quase amadora dos norte-americanos que esfacelavam seus foguetes como brinquedos de papel, e mandavam chimpanzés em cápsulas espaciais de teste enquanto os soviéticos mandavam Yuri Gagárin ao espaço é mais do que bem representada. Eu gostei em especial de uma cena, repetida duas ou três vezes neste filme, que é a cena em que um membro do governo vem correndo pelos corredores da Casa Branca, câmera em seus sapatos, avisar que os soviéticos fizeram isso ou aquilo que eles não haviam feito, e conseqüentemente estavam perdendo a corrida espacial. Toda a burocracia, o populismo governamental do senador Lyndon Johnson (mais tarde presidente), os esforços de JFK em manter uma boa imagem e a vida pessoal, ainda que não desenvolvida, dos astronautas são elementos fortes e bem determinados no roteiro.

Mesmo com uma narrativa longa, o ritmo do filme é bom. O maior problema é que o roteiro, apesar de ótimo, peca em alguns pontos, principalmente quando mostra os acontecimentos em uma base militar na Califórnia e mais precisamente um piloto que tenta se superar e que não acredita no programa espacial. O roteiro é constantemente quebrado para mostrar um personagem que não acrescenta absolutamente nada a trama principal, a não ser alguns toques de canastrice. As complicações que o envolvem são igualmente desinteressantes e isso logicamente prejudica o filme.

Porém, apesar de em certos momentos o roteiro tomar como foco elementos complicadores de nenhuma valia ao filme e se pautar em um personagem irresponsavelmente fraco em comparação com os demais, o seu tom irônico e corrosivo são o seu maior expoente, além do bom ritmo em que conta toda a história espacial norte-americana. Philip Kaufman fez um filme interessantíssimo sobre um tema não muito explorado e o mais importante: quando o caos megalomaníaco (O programa Star Wars do Sr. Reagan que o diga. Ele queria criar um escudo defensivo onde o mundo ficaria sobre vigilância permanente dos satélites espiões americanos que fiscalizariam bases de lançamento globais onde se um possível míssel inimigo fosse lançado, ele seria interceptado em pleo vôo e isso gastaria algo em torno de um trilhão de dólares) e o embate de forças opostas ligadas à mesma fixação tecnológica estavam ocorrendo.

(The Right Stuff, Philip Kaufman, EUA 1983)


1:04 AM

terça-feira, agosto 10, 2004

Hellboy



por Joe Tchenzo

Numa das cenas do filme, Hellboy (Ron Perlman) toma leite com biscoitos acompanhado por um menino comprador de suas HQ´s. 'I´m in a mission' ele diz, sarcástico. Cá pra nós, é complicado imaginarmos o filho do demo com dor de cotovelo tomando leite e comendo biscoitos com um menininho de uns 12 anos, mas esta cena só é possível e aceitável por assim dizer pelo público devido ao carisma infindável do bicho. Hellboy tem um carisma infinito, seus diálogos são todos completamente ácidos e sarcásticos, cheios de humor e sua rotina antitética ou até inimaginável idem. Afinal, ele cuida de filhotes de gatos e gosta de doces.

Quando os simpatizantes de Hitler abrem uma fenda dimensional para trazer o mal para a Terra e conseqüentemente vencer os aliados (o 'mal' é tão obediente assim?), o processo dá errado, mas Hellboy vem à Terra ainda bebê e é adotado por Broom. Amável cientista das amáveis forças aliadas. Mais unilateralismo impossível, mas isso está fincado profundamente nas HQ´s, não nego. Que o diga o senhor Capitão América.

O personagem que dá nome ao filme é bem desenvolvido, seja na sua relação tumultuosa, mas de cuidado mútuo com o 'pai', o cientista Trevor Broom (John Hurt), na brincadeira de menino grande com seu amor platônico Liz (Selma Blair) ou nas cenas de rejeição/cooperação com o agente Myers (Rupert Evans). Hellboy é cativante, e extremamente divertido, algo como um peixinho Nemo do inferno. O personagem altamente irônico tem uma das personalidades mais interessantes das Histórias em Quadrinhos.

Porém, talvez esse tenha sido o maior erro do filme. A tentativa de desenvolver e humanizar única e exclusivamente Hellboy. O foco no protagonista foi tão grande, que o roteiro não conseguiu adequadamente lembrar que existem outros personagens em questão além do vermelho. Os demais são completamente rasos, indiferentes e até apáticos. A outra aberração, Abe Sapien (Doug Jones) é como uma Jean Grey do mundo de Hellboy, só que diferente da X-Man, o telepata é utilizado em uma ou duas cenas do filme e depois mandam 'um abraço' pra ele, é descartado ou simbolicamente mandado para um vidro. O agente Meyers é um estorvo. Eu diria que é até ridículo. O jovem agente do FBI é contratado para ser babá de Hellboy com quem tem alguns desentendimentos. Depois este tem uma queda por Liz, a lindíssima Selma Blair e fica num joguinho pré-escolar com Hellboy. Quando se espera que o roteiro vai caminhar para este meio, ou pelo menos terá essa sub-trama mais desenvolvida, Guilhermo Del Toro manda-a pastar também. O mesmo para o 'pai' de Hellboy, que é tão facilmente descartado como Abe Sapien.

Aí, fica-se única e exclusivamente com a trama de Hellboy enfrentando o mal que é novamente liberado pelo fraco vilão Grigori (Karel Roden) e todas as outras tentativas de dar uma dimensão maior e mais inteligente ao filme são descartadas. É quase um recorte e colagem, aquela brincadeira que se fazia na infância. Del Toro cola umas partes aqui e acolá, mas elas se descolam e não mudam ou interferem significativamente em nada o roteiro inicial, tornando-o tão raso e superficial como seus próprios personagens.

Não que uma adaptação de HQ deva ser tão profunda como um filme de Andrei Tarkovski, mas um roteiro capenga e potencializado em só um único ponto (Hellboy) onde poucas complicações ocorrem e grande parte dessas não são posteriormente utilizadas, é extremamente problemático. E tão problemático como ele são seus personagens já ditos. Sammael, o monstro que Hellboy enfrenta, garante algumas cenas espetaculares e muito divertidas, mas Hellboy só luta contra esse bonitão e isso acaba invariavelmente ficando bem monótono. A criatura nazi com duas espadas é talvez a segunda melhor coisa do filme, depois do vermelho, garantindo algumas cenas interessantíssimas e bem obscuras.

Já o cuidado com a direção de arte e com os efeitos especiais em Hellboy é incrível. Tudo ali é tão esteticamente bem planejado que o filme fica muito bonito e com cenas de encherem os olhos. A direção de Del Toro, ao contrário do roteiro, também é competente e o uso de CGI felizmente não é exagerado.

Como uma diversão descompromissada, Hellboy compre seu papel. O filme entretém e algumas de suas seqüências com um apreço visual bem trabalhado são intensamente envolventes e bem cuidadas. Apesar de um roteiro bem ruim, Hellboy vale a pena principalmente pelo carisma e ironias hilárias do bicho com braço de mármore.

(Hellboy, Guilhermo Del Toro, EUA 2004)



11:38 PM

sábado, agosto 07, 2004

Star Wars: A Trilogia Original





Uma análise nada criteriosa sobre a saga do pseudo jedi George Lucas

por Samuel Buzz

Em 1977, um dos caras mais legais do circuito cinematográfico, George Lucas, entraria para a história do seu mundo com a trilogia intitulada Star Wars. Composta originalmente por três episódios - Uma Nova Esperança; O Império Contra-Ataca e O Retorno do Jedi -, a história girava em torno do jovem Luke Skywalker que, ao se descobrir dotado de habilidades incríveis, recebe o fardo de salvar o universo das mãos do Império Intergaláctico. Eis que, em 1999, exatos 22 anos depois, somos apresentados à que seria trilogia complementar da saga do jovem Skywalker, antecedendo os fatos contados anteriormente por Lucas. Compõem-na: A Ameaça Fantasma; O Ataque dos Clones e, o ainda inédito, A Vingança de Sith.

É irrelevante expor o fundamentalismo da obra para o cinema mundial. Prioritariamente, no panorama dos efeitos especiais (onde o homem testou seus limites, e viu que o mundo era pequeno para estes), grandes obstáculos foram quebrados, e o resultado obtido beira a perfeição. Quando imaginaríamos que, apenas oito anos após o homem pisar pela primeira vez na lua, seríamos capazes de assistir numa tela de cinema a inimagináveis batalhas nas galáxias mais incríveis e deslumbrantes que nunca poderíamos imaginar?

É aí que somos apresentados a um mundo totalmente diferente do que víamos mesmo nos mais mirabolantes desenhos animados. Monstros de três cabeças, quatro olhos, vinte e nove braços e pernas; naves dos mais variados e excêntricos tipos; planetas desertos, pântanos imundos; robôs e andróides simpáticos e adoráveis e, fechando com chave de ouro, o fator essencialmente essencial (tá, eu sei que soou patético, mas deixa) para uma pré-identificação do público: personagens humanamente reais e cativantes. Quem nunca sonhou em ser Luke Skywalker e empunhar um sabre de luz azul, ou mesmo voar na imensa nave dirigida por Han Solo? A principal motivação da trilogia é nos transcorrer a uma realidade paralelamente colorida e futilmente agradável à qual habitamos. E esse papel é desempenhado com louvor pela equipe técnica da LucasFilm que, com seus cenários e histórias envolventes, nos transporta para um futuro sonhável e envolto por uma deliciosa camada de perigo.

É dever cívico de todo e qualquer cinéfilo ter em seu currículo cinematográfico, a visão, revisão, trevisão e etc. da trilogia original Star Wars. Se a história donde é originado o maligno e mais cool vilão de todos os tempos - (colado com o psicótico Hannibal Lecter) Darth Vader - não merece ocupar a mesma frase das derradeiras aventuras galácticas dos ancestrais do dito cujo, é outra história. O fato é que, com os sensacionais Uma Nova Esperança e O Império Contra Ataca, o cinema foi brindado com dois exemplares ficcionais infalíveis de ótima qualidade. Roteiro coeso, direção e atuações sutilmente espertas e efeitos de cair o queixo são alguns dos fatores que circundam os dois primeiros episódios da trilogia inicial. E porquê não dizer o mesmo do último episódio, O Retorno do Jedi? Simplesmente porque os brutos também cansam, e todos, sublinhem aí, TODOS mesmo pareceram sucumbir ao peso do sucesso e da fadiga ao comporem a terceira parte da aventura. Mesmo Mark Hammill, eternizado na pele do jovem Skywalker, entregando sua melhor atuação na série, talvez pela necessidade do roteiro de enfatizar o lado intimista do personagem, claramente alçado ao posto de herói incerto sobre suas escolhas, e de Harrison Ford estar mais sarcástico e irônico que nunca, o não-funcionamento da derradeira aventura de Luke no cinema se deve à um único e mero ponto: o fraco roteiro.

O homem é ganancioso, vocês sabem. E não era mais necessário introduzir o público numa seita, já que este fora anteriormente apresentado às origens do Jedi. Deduze-se então, que bastava uma história simples e automática, sempre recheada de efeitos, para atrair uma grande massa aos cinemas e aumentar o salário do George Lucas (que tem um xará no Grêmio, acreditam?). Mas mesmo assim, O Retorno do Jedi não deixa de cumprir seu papel e fecha com chave de ouro a trilogia Star Wars. E preparem-se: em setembro, chega às lojas de todo o mundo o Box contendo todos os três episódios, dignamente masterizados e digitalizados. Reserve já sua mesada, pois vai valer a pena. Ô, e como, amigo!

Agora, só nos resta esperar (e rezar, claro). Que venha A Vingança de Sith.